sexta-feira, 29 de abril de 2016

Crítica da Tal Revista - Espetáculo "Luzes e Sombras"

Quem a cada apresentação vem se destacando no cenário teatral da Região Metropolitana do Vale do Paraíba, Litoral Norte Paulista e Serra da Mantiqueira é o Grupo de Teatro Blasfêmias. Nesses seis anos de árduo trabalho, o grupo já conta com oito espetáculos, todos eles dignos de aplauso. O mais recente é Luzes e Sombras, assinado pelo dramaturgo e diretor Wladimir Pereira, criador e vanguardista da troupe. No elenco, os veteranos Claudio Viana (Lorenzo) e Mírian Caciji (Cândida). Também, a marcante presença do persuasivo Guilherme Martins (Pascual Puentes), que a cada apresentação nos surpreende com sua aprazível performance. O destaque da vez vai para o jovem Yago Pinheiro (Vicente), ator que promete muito nos espaços cênicos por onde o Blasfêmias passar.

Em Luzes e Sombras, temos uma encenação livre da básica divisão palco-plateia. O que se pode ver é uma soma de intimismo e cumplicidade entre as partes, compondo assim um todo aprazível. Enquanto o doméstico e o social do texto são representados pelos atores, o público não somente pode apreciar de forma bem próxima o conjunto da obra (texto, representação, figurinos, maquiagem, cabelo), como também somar essências que recaem à propriedade do que podemos chamar de “moderno”, com parcos fragmentos do fantástico e do absurdo. É possível perceber que o texto original é salvaguardado.  Em se tratando de texto, o conflito é bem direcionado aos agentes dramáticos, que desenvolvem harmoniosamente o atrito entre as oposições.

Há uma ponte entre essas essências: texto escrito (tema, personagens - Aristóteles); conteúdo (falar e dizer - Corneille); representação e performance (ator - Goethe); personagens do cotidiano (anjos e demônios – Diderot). Há um trânsito melodioso na representação propriamente dita. As cenas são dispostas isoladamente, cabendo aos atores obediência às linhas imaginárias, com e sem música de apoio. A sonoplastia proporcionou a ambiência necessária.

Ainda que a peça tenha sido apresentada em um espaço alternativo, a proposta de iluminação não é apenas a de clarear espaços. Toda ela traceja caminhos, focando-se com precisão. Operador e Mapa de Luz perfeitos para o local e o momento. Deste modo, a iluminação deve ser destacada, porque muito bem conduzida. Ela possibilitou aos atores quebrarem técnica e elegantemente todas as paredes do ambiente, lançando-se no vácuo do tempo e nos transportando a espaços da “quase neutra” Espanha da Segunda Guerra Mundial.

Num jogo temporal, podemos nos tornar, como as personagens, agentes político-ideológicos, visto que nossa análise crítica pode ir para além da narrativa e da própria representação. Como a história nos conta parte da História Mundial, não nos limita a apenas viajar sobre as possibilidades do todo, mas ao todo das possibilidades. Isto é, podemos assinar conjuntamente a paráfrase que nos é proposta pelo autor-diretor e apresentada pelos atores. Há precisão incisiva no coletivo da obra.
Os figurinos apresentam-se delineados e referenciados. As cores dos masculinos (neutros) e dos femininos (vivos) dividem e somam o real e o imaginário. Agradável também é o resultado de estudo de época e a preparação dos atores: representação e dança. Há sequência lógica à narrativa, ainda que ela não se proponha horizontal. Neste específico, talvez alguns momentos de “horizontalismo” presentes nas personagens Pascual Puentes e Cândida possam ser revistos. Também, o “time” de algumas falas. Há longitude no procedimento. Como a temporada da peça revela artifícios, a pergunta é a seguinte: “Tudo isso é proposital?”

No geral, percebemos que a relevância e a excelência esperadas já estão encaminhadas. A equipe soma paixão e técnica, elementos essenciais às apresentações. Neste sentido, temos que nos lembrar de todos os componentes do grupo (atores e técnicos), que ditam o coletivo da apresentação. Para finalizar, um elogio à bailarina Marcia Cristina Rodrigues, como Madame Naná. Ela foi realmente uma participação especial. Amei vê-la, Espanhola!

JOÃO D’OLYVEIRA
Ator e Diretor
MTb-DRT Nº 32920-SP
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